O jovem que criou portal para localizar desaparecidos em terremoto na Venezuela: 'Ainda não sabemos a extensão dos estragos'

Diante da ausência de dados do governo venezuelano, Jorge Bastidas criou site com ajuda de IA para que parentes pudessem buscar informações sobre entes desaparecidos.

Fonte: G1 — 2026-10-23

Jorge Bastidas mostra em seu celular a plataforma Desaparecidos Terremoto Venezuela Daniella Fernández Realin Um amigo ligou para Jorge Bastidas para avisá-lo dos terremotos na Venezuela. Embora parecesse assustado, Jorge duvidou que fosse algo grave. O país já havia passado por tantas crises que ele descartou a possibilidade de voltar a se surpreender. O programador venezuelano de 32 anos, que mora na Argentina, estava em Bogotá a trabalho. Ele cancelou todas as reuniões e passou a tentar entrar em contato com sua família, mas as ligações não completavam. Os colegas venezuelanos que estavam ao seu redor também não conseguiam se comunicar com seus familiares. Meia hora depois dos dois terremotos ocorridos no dia 24 de junho, Bastidas constatou, no chat de um canal de notícias no YouTube, que a maioria dos usuários pedia informações sobre entes queridos que não seguiam incomunicáveis. "Eu gostaria de ter podido estar lá e ajudar de uma forma mais direta, mas não tinha como fazer isso", relata, quase quatro meses após os tremores. "Senti tanta impotência por estar fora do país que procurei outra forma de ajudar." Bastidas decidiu criar um portal chamado "Desaparecidos Terremoto Venezuela". "A ideia principal era que houvesse pelo menos um lugar onde as pessoas pudessem registrar esses relatos (sobre seus familiares) e começar a entrar em contato umas com as outras." Vídeo mostra momento exato em que terremoto duplo atinge a Venezuela Número de desaparecidos Durante quase quatro meses, a página recebeu 82.610 registros de pessoas desaparecidas. Após depurar os dados e eliminar duplicidades com a ajuda de voluntários que verificam as informações, o portal contabiliza pelo menos 29.486 pessoas que ainda não puderam ser contatadas. Não há como saber com certeza o que aconteceu com essas pessoas, já que, até o momento, o governo venezuelano não divulgou uma lista de desaparecidos nem criou um canal oficial para registrar esses casos. Outra plataforma independente chamada Venezuela Reporta estima, com base nos registros recebidos dos cidadãos, que há 41.357 pessoas não contatadas. "Sinto indignação porque o governo tem os recursos para estimar o número de desaparecidos, procurá-los e fornecer informações verificadas à população, e não o faz", diz Bastidas. Questionado sobre a falta de números em 11 de julho, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, afirmou: "Nós não podemos nos basear em especulações, mas sim na realidade". Em 4 de agosto, o governador do Estado de La Guaira, José Alejandro Terán, disse que havia 1.579 desaparecidos. Site registra pessoas que ainda não foram contatadas após o terremoto de junho Reprodução Inteligência artificial Com a ajuda do Claude, a ferramenta de inteligência artificial da empresa Anthropic, Bastidas projetou e publicou o site quatro horas e meia após os terremotos. "No início eu não tinha ideia da dimensão dos danos. Só soube disso algumas horas depois, quando já estava trabalhando na ferramenta", conta, de Buenos Aires. Inicialmente, o portal oferecia um formulário de cadastro que incluía a foto da pessoa desaparecida, seu nome e sobrenome, os dados da pessoa que fazia o registro e seu número de telefone, além da data e do local do último contato. Todos os registros eram adicionados a uma base de dados construída com IA. Bastidas atribuiu diferentes funções de engenharia à ferramenta para que trabalhassem em paralelo. "A inteligência artificial atuou como a equipe de programação da plataforma", explica. Na madrugada de 25 de junho, Jorge enviou o link de sua iniciativa a parentes, amigos e conhecidos. Uma amiga compartilhou o projeto em suas redes sociais, e o programador percebeu que a plataforma estava funcionando. "Chegou um momento em que o tráfego era tão alto que a página saiu do ar e tive que mudar toda a infraestrutura para torná-la mais robusta." Naquele dia foi registrado "o pico mais alto" de tráfego: cerca de 800 mil usuários, um volume que Bastidas não…

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